sexta-feira, 13 de julho de 2012

A Teoria do Medo

As primeiras manifestações em Luanda surgiram um pouco depois da primavera árabe, a reacção do regime foi visceral, ao ponto, de ser considerada temerária e patética. Na fase inicial, os principais partidos da oposição adoptaram posições neutrais, não caíram na tentação do aproveitamento político através da demagogia e do populismo fácil, sempre tão frequentes nestas ocasiões, mas o descontentamento existia e era real.
No entanto, com o intensificar do fenómeno, assistiram-se à manifestações de apoio ao Governo e as respectivas contra-manifestações, algumas de grande alcance, surpreendentes ou não, pela sua grande capacidade de mobilização, tendo em conta os parcos meios de alguns partidos na cena nacional.
O vento passou, e as sementes foram lançadas, apenas os ditos temerários eram conscientes do alcance destas manifestações. Os restantes mortais vivíamos no limbo, desconhecíamos uma realidade chamada ex-combatentes.
As sementes cresceram, a insatisfação perante as desigualdades e as dificuldades experimentadas pela generalidade da população no seu quotidiano, deu lugar, a um descontentamento cada vez mais profundo, em democracia o alvo do mal-estar da população é sempre o Governo, uma realidade com a qual as autoridades se sentem ainda bastante desconfortáveis.
A população foi perdendo medo em expressar o seu descontentamento, enquanto, no executivo o medo foi-se apoderando. Um medo justificado, o medo do contágio transversal a toda à sociedade, parece-me, que aconteceu, o sintoma, as manifestações dos ex-combatentes na baixa de Luanda com as forças da ordem, obrigadas a usar o recurso à força para dispersar. Tanta desigualdade, tanta riqueza mal distribuída, apenas, poderia contribuir para uma bomba social, com um equilíbrio instável.
É preciso reconhecer que houve uma transformação no país, talvez, não com a velocidade desejada e nem com as prioridades estabelecidas, mas existiu uma transformação, mas é uma transformação que apenas abrange uma minoria e exclui uma maioria. Não convém esquecer que em Luanda ainda prolifera muito arsenal de Guerra e quem não tem nada a perder, não se importa de sacrificar a sua vida e a dos demais. O Governo deveria estar mais atento e consciente a está realidade porque um dia corremos o risco de acordar e não estar mais no purgatório mas sim no inferno.

terça-feira, 17 de abril de 2012

A Desintegração da UNITA?

O abandono de Abel Chivukuvuku não constituiu propriamente uma surpresa, já existiam vários indícios sobre a sua ruptura com as linhas orientadoras da UNITA. As suas divergências eram manifestas e inconciliáveis. A saída de Abel Chivukuvuku poderá ter um efeito de arrastamento noutros quadros proeminentes da UNITA e provocar uma hemorragia política no seio do partido, principalmente, se o novo projecto político de Abel Chivukuvuku tiver consistência e for mobilizador.
A posição actual da UNITA, já era frágil, devido a preponderância política avassaladora do MPLA no contexto político angolano, com uma maioria absoluta de 80%, a margem de actuação do principal partido da oposição era diminuta e extremamente difícil.
Nesta nova Era, a UNITA teve dificuldade em reinventar-se, viveu demasiado presa a um passado que estigmatiza em excesso o partido no presente, não acho que o partido deva renegar o seu legado, mas deve centrar-se no futuro. O futuro são os problemas e as carências da população, definir um modelo de desenvolvimento para o país e uma orientação política adequada. A ausência, a inercia, a resistência à mudança, possivelmente, motivaram a decisão de Abel Chivukuvuku, em iniciar um projecto político sem o peso do passado e orientado para o futuro.
É difícil determinar o impacto desta saída na UNITA, mas parece claro, que é uma decisão que beneficia o MPLA, porque parte da premissa, dividir para reinar. Pode existir uma fragmentação e dispersão do eleitorado da UNITA, algo que penaliza o partido. O dilema dos dirigentes da UNITA é determinar a sua amplitude e o seu impacto.
Registo a normalidade democrática em todo o processo, revelador de maturidade política, principalmente, num momento de extrema dificuldade para o partido, também saliento a normalidade institucional do principal partido da oposição em relação ao partido no poder. Um trajecto difícil de traçar, a credibilidade nunca se alcançou numa questão de dias.
Penso que a UNITA deve ter consciência que estamos num outro tempo, a política faz-se de outra forma, tem uma componente cada vez mais profissional, utiliza novos conceitos, o marketing político é um lugar comum, saber gerir a imagem e saber comunicar a mensagem são factores chave. O conteúdo político, económico e social também não pode ser descurado, principalmente, para quem faz oposição.
Por isso, fiquei surpreso, quando consultei o Google, com o intuito de saber, se a UNITA tinha um site na internet, para minha surpresa tem, mas pude constatar que ele apenas existe desde 2012, segundo a data expressa no copyright. Um pouco tarde, ninguém espera por ninguém, Abel também não esperou.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Circulo do Poder

O Poder não se ostenta, exerce-se. Esta seria, segundo a minha opinião, a observação que melhor definiria a pessoa de José Eduardo dos Santos, mas não apenas ele. Poderia também definir a pessoa de Manuel Vicente, enquanto, foi Presidente da Sonangol. A Petrolífera Estatal é a face do Poder Económico, Financeiro e Exterior de Angola, em certa medida, é a imagem de marca do país. Seguindo esta linha de raciocínio o Presidente da Sonangol é uma espécie de Ministro da Economia, das Finanças e das Relações Exteriores de Angola. Tamanho é o Poder. Questiono-me, se abandonar a Presidência da Sonangol para ocupar uma pasta no Executivo, no fundo, não é uma perda de Poder?
Quem tratou com Manuel Vicente, descreve-o, como uma pessoa discreta, afável e um duro negociador, um peso pesado de Angola, coincidência ou não, considero o perfil de Manuel Vicente muito parecido com o do Presidente da República. Não sei se será o Delfim de José Eduardo dos Santos, para uma possível sucessão, o Oráculo da Cidade Alta, é indecifrável, mas são, inquestionavelmente, duas almas siamesas na aparência, ambas conhecem o exercício do Poder, apenas, falta a uma, o exercício da Política para ambas se completarem. O exercício da Política é algo que Manuel Vicente desconhece, pelo menos, na esfera mais intima da oligarquia angolana, a forma, como souber interpretar esta lógica dependerá o seu destino.
Por vezes, uma excessiva proximidade ao Núcleo do Poder, a esfera mais intima, pode ser responsável pelo diluir do Poder de quem se aproxima em demasia, a história política de Angola, está repleta de ascensões e quedas meteóricas. A sabedoria com que se gere o espaço e o tempo, é fundamental, principalmente, para quem tem pretensões políticas maiores. Convenhamos, em Angola são várias as figuras com pretensões maiores.
Na essência, neste momento, não sei o que significa o novo papel de Manuel Vicente no Circulo do Poder, apenas sei, ser um pré-requisito necessário para chegar ao ponto mais alto. O facto, de se considerarem cenários de sucessão no seio do Poder, de existir uma linha de planeamento, apenas, é indiciador da maturidade política que começa a existir em Angola. Se, de facto, chegamos a maturidade política também seria positivo um exercício de reformulação ideológica ao nível dos partidos políticos. Os dogmas devem ficar no passado porque o futuro pertence-nos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Os Impactos e o Poder: Sonangol vs Millennium BCP

A Instituição Financeira Millennium BCP acaba de conhecer uma profunda alteração na sua presidência, saí Carlos Santos Ferreira e entra Nuno Amado. Penso que o timing e a mudança eram necessárias, dado o enfraquecimento da Instituição Financeira. Como o próprio Carlos Santos Ferreira reconheceu, muita coisa foi feita para recuperar a solidez do Banco mas ainda pairava um custo/passivo reputacional sobre a Instituição. O maior pecado de Santos Fereira foi entrar numa Instituição Financeira em guerra com o peso de uma figura politizada, algo que, acabou por marcar toda a sua trajectória no Millennium BCP.
O sucessor, Nuno Amado, tem no seu Curriculum a Presidência do Totta Santander, o único dos grandes bancos portugueses a apresentar lucros. Creio que Nuno Amado não é uma figura mais omnipresente na Banca portuguesa devido à sombra de Horta Osório, por isso, considero a escolha acertada apesar da situação complexa em que vive a Banca portuguesa sobre o espectro do Euro.
É importante que o novo Presidente do Millennium BCP seja imune à influências accionistas, a prioridade é devolver ao Millennium BCP à imagem de grande Banco que perdeu nestes últimos anos, facto bem reflectido na cotação em Bolsa, é necessário que o Banco volte a ser uma máquina de fazer dinheiro, algo apenas possível se existir uma boa gestão.
Continuo a pensar que a aposta para recuperar a solidez financeira é a concentração accionista, o Banco deve ter como base grandes accionistas de referência, portanto, o caminho do reforço accionista da Sonangol no Millennium BCP parece-me correcto, no entanto, não é imune de riscos. A percepção de que é necessária uma maior concentração accionista não passa desapercebida ao próprio Banco, não creio que seja inocente o rumor que corre, que indica uma eventual entrada de um novo accionista chinês na estrutura do Banco. A cotação bolsista, o reforço de capital e a necessidade de liquidez proporcionam um ambiente propicio a uma nova entrada.
A estrutura de poder do Millennium BCP poderá dividir-se entre capital angolano e chinês, diga-se, em abono da verdade, a influência angolana já se faz sentir em todos os órgãos do Banco. É uma consequência natural, não faria sentido ser o maior accionista e não ter capacidade de influência/poder no Banco, mas este alegado poder não deve colidir com o trabalho da nova administração. A prioridade dos accionistas é velar por uma boa governação da Instituição, somente, assim poderá ter força para absorver os impactos e as incertezas futuras.
Os impactos, são os riscos de exposição da Instituição, nomeadamente, à divida grega, com uma eventual reestruturação ou um default no horizonte, as imparidades já se fizeram sentir na mais recente apresentação de Resultados do Banco, depois há que considerar uma eventual saída da Grécia do Euro e as consequências que tremendo desastre terá sobre a economia portuguesa, sobretudo, no seu sistema financeiro, entenda-se, Bancos. As perspectivas são negativas, tudo o indicia, somente, os mais fortes irão sobreviver.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Empreendedorismo e Imigração

Tenho assistido com interesse o novo discurso do executivo sobre o papel da iniciativa privada em Angola, com palavras de estimulo para os empresários angolanos assumirem uma maior preponderância na economia angolana. Este discurso tem como premissa uma menor intervenção do Estado na economia e dar ao privado o papel de principal dinamizador e criador de riqueza, no fundo, é liberalizar a economia, o Estado ou os seus protagonistas assumem um papel liberal.
É uma mudança radical de discurso e de pensamento, passar de um modelo intervencionista na economia para um papel de delegar funções para os privados, a questão, é saber se um modelo mais liberal funciona em economias em estados prematuros de desenvolvimento, onde os empresários não possuem massa critica e nem existe acumulação de bens de capital?
Penso que em economias em estado prematuro de desenvolvimento, o Estado tem um papel fundamental na economia definindo as prioridades de desenvolvimento e uma intervenção activa no planeamento das infraestruturas necessárias para o país, principalmente, quando o privado nacional carece de competências para assumir esse papel. No meu ponto de vista, o papel do Estado na economia angolana chega ao ponto, de ser o principal responsável para criar condições para que a iniciativa privada se possa desenvolver.
Para ser empreendedor, não basta ter uma ideia de negócio exequível, é preciso capacidade para implementar a ideia, a capacidade passa pelo acesso à capital humano, capital próprio e capital alheio. Estas condições nem sempre estão reunidas no mercado angolano, onde o acesso à mão-de-obra qualificada é difícil, bem como ao financiamento, um processo demasiado complexo, sem mencionar toda a estrutura burocrática que existe em Angola.
Curiosamente, faz-se apologia à uma posição mais liberal mas depois a prática é de um maior proteccionismo, nomeadamente, no que se refere à incorporação de mão-de-obra estrangeira mais qualificada. Não nos enganemos à mão-de-obra estrangeira mais qualificada não vem para Angola, procura outras paragens para desenvolver a sua carreira profissional de forma mais sustentada, procura condições que Angola não pode oferecer porque simplesmente não possui. No entanto, a mão-de-obra qualificada que chega à Angola é necessária porque é requerida pelo próprio mercado, senão fosse necessária simplesmente não seria absorvida. Aqui coloca-se uma questão essencial, porque razão os quadros formados nas Universidades angolanas são preteridos em relação aos estrangeiros? Porque razão o mercado faz esta distinção? Será que o ensino universitário em Angola vai de encontro com as necessidades dos empresários? Será que as Universidades angolanas trabalham o mercado e fomentam a constituição de parcerias entre a Universidade e a Empresa? Ou será que a Universidade se limita a formar quadros, sem fazer um acompanhamento da sua inserção no mercado de trabalho, deixando o recém-licenciado entregue a sua própria sorte? Será que a Universidade tem instrumentos para os recém-licenciados desenvolverem os seus próprios projectos empresariais, incentivando, deste modo, o empreendedorismo?
Nesta questão existem dois grandes malefícios para a economia angolana, o recém-licenciado que fica no desemprego, cada dia corresponde a uma perda de competências e a uma desvalorização do investimento realizado, por outro lado, o expatriado para quem Angola é apenas um projecto de vida de curto-médio prazo, quando seria do interesse do Estado e da economia angolana que o seu projecto profissional e de vida fosse de longo-prazo.

sábado, 21 de janeiro de 2012

O Ciclo Eleitor em Angola

Se as expectativas se cumprirem em 2012, Angola irá ser palco de Eleições Presidenciais, espero que este facto seja uma realidade. Seria um sinal do normal funcionamento das Instituições em Angola, apesar da sua normal fragilidade. Gostaria de analisar o ciclo eleitoral em Angola, em circunstâncias normais penso que o MPLA ganhará sem dificuldades as próximas eleições, apesar, do crescente descontentamento das populações em relação à Governação preconizada por José Eduardo dos Santos. No entanto, uma vitória avassaladora do MPLA não me parece positiva, para Angola e nem para o próprio M. Penso, que as discrepâncias eleitorais não serão tão esmagadoras, porque todo o processo eleitoral parece ser mais transparente, por outro lado, os observadores internacionais estarão mais atentos as irregularidades do processo eleitoral. No entanto, como já foi referido, a vitória do MPLA não está em questão, a questão será saber a margem da vitória.
Analisando o papel de cada partido no país, podemos reconhecer que o MPLA reúne a elite política e económica do país, por isso, não surpreende o absoluto controlo dos meios de comunicação social, um instrumento vital na construção da vitória democrática, e não é por acaso, o acesso é muito restringido aos demais partidos políticos. É um atributo fundamental, para transmitir as escolhas políticas do Governo e o adoutrinamento dos cidadãos.
Esta falta de acesso aos meios de comunicação por parte da UNITA, é um dos principais obstáculos a sua acção política, no meu entender, é fulcral uma maior presença do partido junto das bases sociais do país, senão é possível um acesso equitativo aos meios de comunicação social, então, o trabalho terá que ser na rua, junto das populações. O fundamental, neste processo, é ter uma linguagem e uma mensagem adequada ao público-alvo, simples e directa de forma a ser correctamente assimilada e entendida pelo potencial eleitor. Sem demagogia, expor de forma séria e compreensível o projecto de Governação do partido para o país. É fundamental que a comunicação da mensagem política seja perceptível e passível de ser compreendido pelo eleitor, somente assim, é possível despertar as consciências. A UNITA tem sido um partido cuja base social tem sido sistematicamente reduzida, numa democracia este processo não é normal, para este definhamento, a explicação mais plausível deste fenómeno é a ausência de elites intelectuais e económicas no partido. Por outro lado, o Bloco Democrático reúne possivelmente a nata da nata da elite intelectual angolana, no entanto, a expressão eleitoral deixa muito a desejar, a minha explicação para este fenómeno deve-se ao facto do povo angolano ainda não estar preparado para um discurso político muito intelectualizado, na essência, o Angolano vê na política uma forma de subir na vida, portanto, a opção mais lógica é o M.
Luanda foi palco de novos eventos como as manifestações, que provocaram nervosismo no Executivo, com afirmações e reacções despropositadas, no entanto, estas manifestações revelaram um facto muito importante, um exercício de maturidade cívica e política dentro do possível, apesar das intimidações, não se registaram vitimas. Se os políticos angolanos viverem sobre o espectro da responsabilidade, se preocuparem exclusivamente em cumprir com o seu papel, o país poderá respirar um novo fôlego e colocar o país na vanguarda política da África Subsariana, caso contrário, vamos continuar a assistir aquele filme continuamente repetido nas matinés dos fins de tarde.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O Perfil do Investimento Chinês

Creio que a recente aquisição de 21,35% do capital da EDP, mais o direito de preferência sobre os remanescentes 4% em posse do Estado português, pela China Three Gorges, num negócio cifrado em 2,7 mil milhões de Euros, deveria fazer reflectir Angola sobre o perfil do investimento chinês. Notamos que o investimento chinês em Angola é muito vocacionado para o baixo valor acrescentado, nomeadamente, com um interesse muito incisivo no acesso e na exploração dos recursos naturais, com o objectivo primordial de abastecer as necessidades de energia da sua economia, mais concretamente, da sua indústria.
Do ponto de vista da economia angolana é um trade-off pouco vantajoso, fornece matérias-primas em estado bruto, com pouco valor incorporado, sem qualquer tipo de transformação, porque ela ocorre no país importador, depois de transformados são exportados de volta para Angola. O caso mais típico e paradoxal, é a exportação do crude, o maior responsável pelas exportações angolanas, ao mesmo tempo, o crude refinado é uma das maiores componentes das importações angolanas.
Notamos que Angola tem pouca capacidade para atrair Investimento Estrangeiro de qualidade, que seria fulcral para a dita diversificação da sua economia, depois começamos a sentir que a dita diversificação não passa de um chavão, apenas, um projecto para ficar no papel. É necessária uma mudança no funcionamento da economia angolana com o intuito de ser mais atractiva ao investimento nacional e estrangeiro. Caso contrário, Angola será sempre, apenas um país com capacidade para atrair investimento com baixos índices de competitividade, logo, os seus níveis de desenvolvimento serão inevitavelmente mais lentos.
Obviamente, Angola não possui os recursos, nem o músculo financeiro chinês, mas as opções de investimento chinesas são bastante evidentes, ter posições de domínio em empresas de elevado know-how, como a EDP, um know-how que os chineses carecem neste momento e estão dispostos a comprar, proporcionar financiamento para que a empresa possa continuar a crescer no mercado da América Latina e abrir o mercado asiático. Neste prisma o preço pago pela empresa tendo em conta o seu valor até foi baixo.
O ponto de reflexão é este, a China tem excesso de liquidez, falta de know-how e falta de recursos naturais, Angola possui recursos naturais mas não possui know-how, nem liquidez, não faria sentido Angola vender os seus recursos naturais num mix know-how e liquidez? E paulatinamente reduzindo a sua dependência em relação ao exterior?

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Portugal: Activo de Risco para Angola

Na mais recente passagem do FMI por Luanda, este organismo internacional alertou para o risco da exposição angolana à Portugal. As autoridades angolanas tentaram desdramatizar a situação argumentando que a exposição aos fluxos financeiros portugueses é reduzida.
No entanto, penso que o risco é real e mais grave, não se resume a uma questão de fluxos financeiros, mas também é económica. Neste momento, a economia portuguesa encontra-se intervencionada pela Troika (UE, BCE e FMI) porque a sua economia perdeu acesso aos mercados financeiros, e não é liquido que após o pacote de ajuda Portugal possa voltar ao mercado e de forma comportável. Este condicionamento, repercute-se na economia real, senão existe acesso a financiamento vai-se gerar uma situação de sobre-capacidade que não vai ser absorvida pela economia porque os seus agentes vão deixar de consumir e por inerência investir, vamos assistir a uma contracção violenta da procura interna.
Nesta conjuntura difícil, vai ocorrer uma dura recessão, muitos organismos internacionais apontam para 4% ou 5% do PIB, esta recessão vai ser muito mais violenta porque se vai realizar num cenário desalavancamento da economia, o Estado, as empresas e as famílias estão excessivamente endividadas.
Esta circunstância afecta de sobremaneira a economia angolana porque as empresas portuguesas têm uma grande exposição a este mercado, para muitas empresas portuguesas, Angola representa já mais de 50% do seu portefólio de negócios. Por isso, faz sentido o FMI considerar Angola um activo de refúgio para a economia portuguesa. A questão, é que muitas empresas estarão sob três forças; a necessidade de reduzir a sua sobre-capacidade, a necessidade de reduzir o endividamento e a falta de crédito no sistema bancário português.
A banca portuguesa está num duro processo de recapitalização tutorado pela Troika, sem acesso a crédito não existe comércio externo, as empresas portuguesas de um modo geral sentirão necessidade de reduzir as suas operações com o objectivo de gerar liquidez, portanto, continuarão a desinvestir, sendo Angola um mercado preferencial, é natural que a economia angolana sinta as repercussões da recessão portuguesa e da falta de capacidade investimento das suas empresas. É um cenário trágico para Angola? Não, mas é preocupante e merecedor de análise.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Perigos e Similitudes Chinesas/Angolanas

Alguns conceituados analistas internacionais prevêem o abrandamento da economia chinesa num curto espaço de tempo. Existem alguns sinais económicos que são o pronúncio desta eventualidade, nomeadamente, a contracção pelo terceiro mês consecutivo da actividade manufactureira, o crescimento da borbulha no sector da construção, os preços dos activos chineses entraram numa tendência de caída e as empresas do sector têm cada vez mais dificuldades em financiar-se. A dívida dos Governos locais atinge 27% do PIB e considera-se que 80% é incobrável. As empresas chinesas cotadas em Wall Street caíram consideravelmente, depois, de ser conhecido a manipulação das suas contabilidades.
Uma caída abrupta da Bolsa Chinesa poderá ter o efeito perverso de corroer as poupanças das famílias chinesas, provocar falências em massa e disparar o desemprego chinês. O contágio com o resto do mundo seria imediato, com consequências directas para Angola, tanto ao nível do financiamento da própria economia, como no Investimento Directo Chinês no país, bem como no apetite pela procura de recursos naturais. Um efeito negativo na economia chinesa tem um efeito imediato na economia angolana. Uma menor pressão na procura de commodities implicará uma queda nos preços, logo nas receitas fiscais do Estado angolano, e possivelmente, uma quebra no PIB e um deficit na conta-corrente. Existe ainda, mais uma questão, que convém frisar, a existência em Angola de uma borbulha imobiliária ou um sobreaquecimento do sector? Quando irá estoirar? Será em simultâneo com a China? Quais as consequências? A interconexão entre a economia chinesa e angolana é forte, para o bem e para o mal.
O próprio modelo político chinês poderia estar em causa, num cenário de grave crise económica, ele baseia-se na seguinte premissa, o povo abdica do processo de tomada de decisões, em troca, o Estado governa de forma centralizada, com o objectivo de criar emprego e promover uma crescente prosperidade do povo chinês. Neste, ponto existe uma divergência, em relação à Angola, o Executivo ainda foi capaz de promover esta forte onda de criação de emprego e trilhar o caminho da prosperidade. Curiosamente, o Governo chinês começa a ser assolado por alguns dos males mais recorrentes em Angola, como, por exemplo, a corrupção ao nível dos seus funcionários públicos, que apesar, de ser punida pela pena capital, não tem desmobilizado esta práctica na China, por outro lado, assistimos a uma cada vez maior assimetria social no país, os trabalhadores das grandes cidades chegam a ganhar 3 vezes mais do que os camponeses, sem referir a ascensão meteórica dos multimilionários chineses. Não surpreende, por isso, que no último ano na China tenham ocorrido mais de 180.000 manifestações de rua clamando por uma maior Justiça Social. Existem semelhanças entre os problemas que assolam Angola e China, a principal, diferença é que os problemas chineses têm um impacto muito maior tanto na economia angolana como mundial, mas o caldo social de onde surgem, detêm os mesmos nutrientes. Portanto, um problema grave na China terá sempre um impacto grande em Angola, é curioso, verificar que muitos dos problemas que existem na economia chinesa são semelhantes à angolana mas com dimensões totalmente distintas. Possivelmente, este seja um dos factores que explica a cumplicidade Chino/Angolana, sem mencionar o interesse estratégico chinês.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A Sucessão Presidencial

Há muito tempo se especula sobre uma eventual sucessão presidencial em Angola, alegando ser tempo de passar o testemunho. Uma ideia reforçada pelas convulsões sociais nos países norte-africanos e pelas manifestações nas ruas de Luanda. No entanto, segundo, a nova Constituição da República, a eleição presidencial deixou de ser unipessoal para ser uma eleição de carácter partidário. Portanto, a questão da sucessão de José Eduardo dos Santos é mais uma questão do foro interno do MPLA, do que, uma questão nacional.
Um observador externo caracterizaria José Eduardo dos Santos como uma pessoa discreta, ponderada, equilibrada e pouco propenso a excentricidades. Uma pessoa que reúne condições para promover a estabilidade e a previsibilidade no país. Sendo Angola, uma reserva energética e uma fonte de diversificação no abastecimento das principais potencias mundiais, estas características são bastante apreciadas.
Por isso, penso que a sucessão de José Eduardo dos Santos é bastante complexa, tanto pelas suas características pessoais, como pela forma, como é percepcionado pelos principais lideres mundiais. Inclusivamente, dentro do próprio MPLA é difícil encontrar uma personalidade que possa suprir José Eduardo dos Santos. No entanto, a sucessão é inevitável pelas próprias circunstâncias da condição humana, por isso, é preferível que seja bem planeada.
Alguns nomes têm sido veiculados, entre eles, Manuel Vicente, alguém com um perfil semelhante à José Eduardo dos Santos. Considero que poderia ser uma boa escolha porque se trata de uma pessoa bastante calejada na alta esfera dos negócios, tanto, nacionais como internacionais. Apesar, de ter um percurso invejável, tem uma falha grave, pelo menos, segundo, o meu ponto de vista, Manuel Vicente, como Presidente da Sonangol, pode ficar na história de Angola como o responsável pelo negócio mais ruinoso do país, refiro-me a aposta no Millennium BCP. Enquanto, esta situação não for invertida, penso que Manuel Vicente, não tem condições para suceder à José Eduardo dos Santos. Não faz sentido uma sucessão com uma personalidade fragilizada.
No meu ponto de vista, de acordo com a conjuntura de profunda crise internacional e um contexto de elevada incerteza em relação ao futuro, penso que a melhor opção para a sucessão presidencial, é o próprio, José Eduardo dos Santos. Não antevejo grandes alternativas, é preferível a aposta na continuidade, por aquilo que já conhecemos, do que apostar pelo desconhecido, quando se aproxima uma enorme tempestade à nível mundial. Pessoalmente, desejaria que o futuro Governo estivesse mais focado na luta contra a pobreza e um combate mais forte à corrupção. Penso que estas, são as duas maiores falhas da Governação de José Eduardo dos Santos, devem ser corrigidas, é certo que é impossível elimina-las, mas podem e deveriam ser atenuadas.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A Gestão do Ciclo Económico e Social

Nesta última década assistimos a um fortíssimo crescimento real do PIB em Angola, a fase ascendente inicia-se em 2003 com um ponto de partida inferior à 5%, até 2007 com um valor superior à 20%, mas sem atingir os 25%. Em 2008, já notamos indícios de desaceleração, o crescimento real do PIB não chegou a alcançar os 15%, e em 2009 foi a quebra total com o PIB a situar-se nos 2,4%. Convém ter em atenção, a inflação angolana situa-se num patamar com dois dígitos, variando entre os 12% à 15%.
O forte ciclo expansivo da economia angolana ficou a dever-se ao período de paz e a evolução ascendente do preço do crude até 2008. O ano de 2008 coincidiu com o crash à nível mundial nos preços da commodity e com a falência do Lehman Brothers. No entanto, não deixa de intrigar o fortíssimo colapso do PIB angolano em 2009, a explicação mais plausível, pode encontrar-se na má gestão do ciclo económico feita pelo Governo.
Quando a economia entra num forte ciclo expansivo as receitas fiscais crescem mais do que a própria economia, na maioria das vezes, os Governantes mais incautos deixam-se deslumbrar por este fenómeno, o problema, é quando a economia entra na fase recessiva, as receitas fiscais caem de forma abrupta. Isto acontece porque as famílias, as empresas e o sector público perante a constatação da expansão da economia aumentam os seus níveis de consumo/gastos, algo, que contribui para intensificar as pressões inflacionistas, antecipando, deste modo, a futura recessão. Quando a recessão chega as famílias, as empresas e o sector público diminuem o seu nível de consumo/gasto, o que contribui para diminuir o nível de receitas do Estado.
Esta má gestão do ciclo económico poderá ter sido responsável pela ruptura da tesouraria angolana, com os consequentes atrasos nos pagamentos aos seus fornecedores e a necessidade de pedir a intervenção do FMI com a celebração de um Stand By Agreement para regularizar a Balança de Pagamentos.
O mercado angolano não é fácil, ao contrário, do que se possa pensar, realmente, o CEO da maior construtora portuguesa tem razão, é necessário musculo financeiro para poder estar em Angola. O mercado tem um conjunto de especificidades muito próprias, e quem não tiver flexibilidade, é melhor pensar duas vezes.
Também registei com particular interesse as afirmações de Aguinaldo Jaime, apelando para a responsabilidade social das empresas, é um aspecto bastante importante, as empresas devem ter uma preocupação em dignificar os seus empregados mas também um papel junto das comunidades onde desenvolvem as suas actividades. Existe cada vez mais uma tendência das empresas para desenvolverem actividades que contribuem para o bem-estar das comunidades, promovendo uma integração entre a empresa e a comunidade, por exemplo, acções de voluntariado, acções de formação e acções de selecção.
Ao nível do Estado penso ser importante o fomento da integração social com a erradicação da pobreza, seria útil estudar, o que alguns países fizeram para lutar contra esse problema, o Brasil deveria ser uma referência para Angola. O programa Bolsa de Família foi muito bem sucedido no Brasil, podia-se desenvolver um programa semelhante de acordo com a escala de Angola, penso que seria algo muito positivo, obrigaria a uma modernização da Administração Pública para acompanhar, controlar, fiscalizar e avaliar o programa, mas também seria importante para promover a bancarização da própria população, algo que contribuiria para dar um salto qualitativo no país.

domingo, 18 de setembro de 2011

A Pressão do Ciclo Político

Quando Luanda foi palco da primeira manifestação pacífica, que acabou reprimida pela policia com a detenção dos manifestantes, abriu-se na cena política um elemento de imprevisibilidade, nomeadamente, qual seria o posicionamento das diferentes forças políticas e a reacção futura dos manifestantes. Nós apostamos por uma tendência para a continuidade e o reforço das manifestações, principalmente, devido ao nervosismo inicial denotado pelo MPLA e a confrangedora actuação policial.
O fenómeno é interessante de analisar, a primeira manifestação surge num contexto de convulsão política e social no Norte de África e com uma nova Constituição da República aprovada, onde curiosamente, esta consagrado o direito de manifestação. É neste, contexto, que surge a primeira manifestação, os desenvolvimentos seguintes, acabam por contribuir para pôr em causa a própria Constituição da República e expor a fragilidade do elemento político em Angola.
A reacção dos manifestantes foi espontânea, sem grande capacidade de organização, nem grande capacidade operacional, o que denota a ausência de uma estrutura politizada como suporte. Os partidos políticos da oposição hesitaram e outros demarcaram-se. Explicação possível, incredibilidade perante a origem deste movimento social. Apenas, quando o fenómeno passou a ganhar mais consistência alguns partidos políticos começaram a aderir. Entre os partidos políticos da oposição, o que melhor se posicionou foi o Bloco Democrático, compreendeu melhor o fenómeno. A UNITA distanciou-se, permaneceu refém do seu passado e prisioneira de si mesma.
Agora, curiosamente, assistimos a um movimento interessante, o MPLA atribui o ónus das manifestações à UNITA, com o principal partido da oposição a permanecer num estado vegetativo em termos políticos, sem reacção. Obviamente, para quem esta descontente com a situação actual que se vive em Angola, não compreende a omissão política e o silêncio, principalmente, quem dá a cara por uma causa comum, no mínimo, espera um pouco de solidariedade. A movimentação do MPLA em atribuir o ónus político à UNITA, vai no sentido de obrigar o principal partido da oposição a demarcar-se ainda mais dos manifestantes e a isolar-se socialmente, reduzindo deste modo a sua base de apoio. Quem está descontente, não vai votar MPLA, nem UNITA, vota noutro partido político com mais capacidade de reivindicação e intervenção social.
Nas democracias ocidentais é normal os partidos políticos associarem-se as manifestações pacificas, como, por exemplo, as manifestações de protesto organizadas pelos sindicatos, é comum, ver os dirigentes políticos mais destacados da esquerda presentes e lado a lado com os organizadores e no meio dos manifestantes, apenas, estão a cumprir o seu papel de intervenção social. É um processo normal, inusitada, é a reacção das autoridades angolanas, muito musculada, os julgamentos exagerados, transformam-se manifestantes em mártires políticos, todos os condenados devem pensar em seguir uma carreira política porque a condenação confere estatuto e capital político.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O Efeito Leila Lopes

Angola conseguiu um grande feito eleger uma Miss Universo. O país foi notícia em todo o mundo e em todos os meios de comunicação. Creio que Angola nunca teve tanta notoriedade positiva no mundo como com esta coroação. Nem o CAN 2010, que Angola organizou conseguiu um efeito mediático tão impressionante como esta eleição. E não foi necessário realizar um investimento tão avultado como o CAN 2010 para conseguir tamanho protagonismo. Aliás, se o Governo pretendesse lançar uma campanha de promoção mundial do país com o mesmo grau de exposição e de protagonismo teria que gastar uma quantidade indigente de dinheiro.
Este feito de Leila Lopes é uma oportunidade única de promover Angola, de construir uma marca país, expor os atributos positivos de Angola. Não sei se Angola tem uma Entidade própria de promoção do país no exterior, em caso negativo, seria caso para pensar constituir uma ou contratar uma empresa especializada para o efeito.
Esta eleição de Miss Universo tem um valor económico tremendo para o país, o primeiro efeito, que se fez sentir foi alimentar a auto-estima dos angolanos, o segundo efeito, deveria ser uma alavanca para os empresários angolanos promoverem a marca das suas empresas e dos seus produtos, e um terceiro efeito, esta eleição poderá representar um balão de oxigénio para o próprio Governo.
O Governo não pode desperdiçar esta oportunidade e capitalizar este feito na promoção da economia angolana, nomeadamente, destacando os atributos mais positivos do país e continuar com o esforço do desenvolvimento angolano. Será fundamental, o país como um todo, fazer um esforço de marketing e reposicionar Angola no lugar que merece, um estimulo mais forte do que este será difícil de encontrar. Será uma pena se Angola não souber aproveitar está oportunidade para dar um salto qualitativo. Entretanto, os Angolanos estão de Parabéns.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Os Index's, Manifestações e Angola

Nos vários Index's que são realizados por vários Organismos Internacionais, de uma forma geral, Angola aparece sempre mal classificada. O mais recente, publicado pela Fund for Peace, Angola aparece menos mal classificada, ocupando a posição 52 num universo de 177 países analisados.
A percepção que temos de nós mesmos, quase nunca corresponde a percepção que os outros têm de nós, em muitas circunstâncias, a percepção dos outros pode ser determinante, nomeadamente, quando se trata de investir. Seria interessante encontrar uma explicação porque razão os Organismos Internacionais têm sempre esta percepção negativa sobre o país.
Penso que uma das razões para esta percepção negativa deve-se ao facto das Instituições em Angola, em muitos casos, ainda não funcionarem com normalidade e independência. Esta carência nas Instituições é responsável pela fragilidade nas garantias e na defesa dos direitos dos cidadãos em Angola.
Quando as Instituições do Estado sofrem de debilidade existe uma maior tendência para comportamentos sociais desviantes, como por exemplo, a corrupção. Como alguém já alguma vez referiu, o Estado tem uma propensão para dificultar a vida do cidadão para poder vender facilidades. Em parte, esta em causa a organização do próprio Estado.
Mas esta imaturidade das Instituições é uma consequência natural, é o preço de uma Guerra Civil que devastou o país e que o desorganizou. Quando um país esta em Guerra Civil, não existe Estado Democrático, existe apenas Estado de Sobrevivência.
O país alcançou a paz, a transição foi rápida e estável, o Governo que assumiu funções fez uma aposta clara pela recuperação do país através da Infra-Estruturação. Neste período, de praticamente, 10 anos de paz, o país conheceu crescimentos impressionantes do seu PIB, com a excepção de um ano, em que houve uma queda abrupta no preço do crude, devido a crise internacional. A questão, é que a velocidade com que o Governo tentou transformar o país não coincidiu com a urgência das necessidades dos mais carenciados, nem com a emergência das expectativas dos que esperavam uma vida melhor. De certa, forma as classes sociais mais desfavorecidas foram negligenciadas, perante, o espectro do crescimento do país através da criação de novas Infra-Estruturas e a percepção da ineficiente distribuição da renda, acabou por se gerar um caldo social com uma enorme assimetria e que apenas pode dar mau resultado no futuro.
Houve uma falta de pudor na ostentação da riqueza por parte dos sectores mais privilegiados da sociedade, quando seria aconselhável mais descrição e prudência. Teria sido importante um esforço para uma melhor organização da Administração Pública com o objectivo de aplicar uma séria política de integração social, um pouco a semelhança do que aconteceu no Brasil, mas de acordo com a escala de Angola.
A sociedade na sua desigualdade transformou-se, com uma juventude mais consciente e mais exigente, que não está disposta a assistir com passividade a actos de má governação, de má gestão e muito menos pactuar com casos de corrupção. Penso que esta juventude que se manifesta não tem a força suficiente para depor ninguém, mas são um transtorno e um incomodo muito grande. Obviamente, o mais visado será sempre o líder, é o rostro do poder, como acontece em todos os lugares do mundo, onde existe insatisfação popular.
É notório que a maioria absoluta esmagadora conquistada pelo MPLA nas últimas eleições, teve um efeito lesivo no próprio partido porque conduziu ao laxismo.
O Futuro de Angola, não é incerto, apenas tem que seguir com cuidado a sua política económica, que têm dado frutos, muito dos seus efeitos não serão imediatos, é importante manter o mesmo rumo que tem sido seguido até agora, apenas, com uma particularidade, seria importante uma maior componente social na política do Governo, isso implica, necessariamente, uma melhor organização das Administrações Públicas, é necessário distribuir renda pelos mais carenciados, uma política de integração social é necessária. É preciso distribuir a riqueza e permitir um aumento dos padrões de consumo pelos mais carenciados. O processo de transformação será lento, mas isso é normal, o contexto internacional, também não é favorável, o importante é manter uma trajectória sólida e que conduza a consolidação económica e social do país.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

The Failed States Index 2011

Recentemente, descobri um novo Index que despertou a minha atenção, chama-se The Failed States Index. É um Index que se baseia em 12 indicadores e 100 sub-indicadores para construir um Ranking dos países mais frágeis e vulneráveis do mundo. Por outras palavras, um Ranking que mede a susceptibilidade e o risco de um país entrar em colapso. Neste Index, quanto mais baixa for a pontuação menos vulnerável é o Estado, na outra extremidade, encontram-se os países mais vulneráveis que concentram pontuações mais elevadas, portanto, lideram o Ranking de Colapso.
O Index baseia-se em 12 indicadores de cariz económico, politico e social. Os 12 indicadores são subdivididos em mais 100 indicadores. O Index é realizado desde 2005, o interessante deste Ranking, no que concerne a Angola, é o facto, de Angola fazer parte do Index desde a sua fundação. É importante, porque permite avaliar a evolução do país desde 2005 até a data de hoje. Estes Index são relevantes, porque permitem aferir num conjunto objectivo de critérios os pontos mais vulneráveis do país e as situações que correram menos bem. A percepção que temos de nós mesmos, muitas vezes (a maioria) não corresponde a percepção que os outros têm de nós. É preciso pensar, documentos desta natureza podem ditar, que muitos investidores em vez de investir no país A, acabem por decidir investir no país B. Estes Index têm capacidade de influenciar decisões e de construir opiniões (percepções).
Por isso, passemos, a analisar, a evolução de Angola no Index desde 2005 até a data de hoje:

a) Em 2005, Angola ocupava a posição 43 e o Index era composto por 76 países;
b) Em 2006, Angola ocupava a posição 37 e o Index era composto por 146 países;
c) Em 2007, Angola ocupava a posição 53 e o Index era composto por 177 países;
d) Em 2008, Angola ocupava a posição 56 e o Index era composto por 177 países;
e) Em 2009, Angola ocupava a posição 55 e o Index era composto por 177 países;
f) Em 2010, Angola ocupava a posição 59 e o Index era composto por 177 países;
g) Em 2011, Angola ocupa a posição 52 e o Index é composto por 177 países.

Quanto mais afastado um país estiver do topo do Ranking menos vulnerável é considerado, por inerência, a sua pontuação é mais baixa. Notamos que, em 2011 houve uma ligeira queda, do 59º lugar para o 52º lugar, possivelmente, a explicação reside na quebra da actividade económica verificada em Angola, como consequência da crise internacional. Para terminar o texto, vou expor os 12 critérios sobre os quais Angola foi avaliada:

Indicadores Sociais:

Mounting Demographic Pressures
É um indicador que mede a pressão das doenças e dos desastres naturais sobre as populações e que tornam difíceis ao Governo cumprir com as suas obrigações sociais.

Massive Movement of Refugees or IDP's
Mede a pressão associada ao deslocamento massivo das populações. Este facto constrange a resposta dos serviços públicos e é considerado um risco de segurança porque aglomerados grandes de pessoas são susceptíveis de politização.

Vengance-Seaking Group Grievance
Quando existe tensão e violência entre grupos, este facto corrói a capacidade do Estado de providenciar segurança. Quando a segurança não é garantida, a violência e o medo proliferam.

Indicadores Económicos

Uneven Economic Development
Quando existem diferenças étnicas, religiosas ou regionais, os governados tem uma tendência para não cumprir com o contrato social.

Poverty, Sharp or Severe Economic Decline
A pobreza e o declínio não permitem ao Estado cumprir as suas obrigações sociais. Nomeadamente, o controlo da inflação e do desemprego.

Indicadores Políticos e Militares

Legitimacy of the State
A corrupção e a falta de representatividade do Governo põem em causa o contrato social.

Progressive Deterioration of Public Services
O fornecimento de serviços de saúde, educação e saneamento são peças cruciais do contrato social.

Violation of Human Rights and Rule Law
Quando os Direitos Humanos são violados o contrato social fica enfraquecido.

Security Apparatus
O Aparelho de Segurança deve ter o monopólio no uso legitimo da força. Quando o Aparelho de Segurança é fracturado ou compete com grupos paralelos, o contrato social é enfraquecido.

Rise of Factionalized Elites
Quando lideres locais e/ou nacionais se perpetuam ou usam o poder em beneficio pessoal, o contrato social é enfraquecido.

Intervention of External Actors
Quando o Estado não consegue cumprir com as suas obrigações de acordo com o contrato social, normalmente, Actores Externos intervêm para fornecer os seus serviços ou para manipular os Assuntos Internos com intuito de obter ganhos económicos e/ou políticos.

Angola no The Failed States Index 2011 ocupa a posição 52 num total de 177 países com a pontuação de 84,6. Aqui fica o link para quem pretender consultar:

http://www.fundforpeace.org/global/?q=fsi-grid2011

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O Sistema Bancário Angolano

Hoje, tive a oportunidade de recordar um estudo da KPMG, creio de 2009, que apontava Angola, como o terceiro maior mercado bancário da África-subsariana. Acredito que possa ser perfeitamente verdade, não fiquei surpreso. No entanto, quando penso na dimensão do Sistema Bancário Angolano em Angola, sou obrigado a pensar, que não detém uma dimensão demasiado relevante. A cobertura bancária pelo território nacional, ainda é bastante deficitária, além disso, não acredito que, a generalidade, do Sistema Bancário Angolano detenha uma carteira de activos demasiado elevada.
O Sistema Bancário Angolano encontra-se concentrado nos grandes centros urbanos, nomeadamente, em Luanda. Apesar, de considerar o Sistema Bancário pouco expressivo, ele é extremamente concorrencial, porque para a dimensão que possui, existe um excesso de oferta bancária. Há Bancos a mais.
A concorrência, é extremamente forte, os Bancos Portugueses têm um papel de destaque, principalmente, porque partem de uma base muito maior e são detentores de um know-how melhor. Mas o mercado é feroz, os Bancos Angolanos batem-se bem.
Os Angolanos que preveligiam uma oferta mais diversificada de produtos e um atendimento mais especializado, tendencialmente, procuram Bancos Portugueses, normalmente pertencem a classes sociais mais elevadas, enquanto, os Angolanos animados por um maior sentimento de Angolanidade procuram os Bancos Nacionais. Creio que não existe nada de anormal, neste facto, é apenas o mercado a funcionar.
No entanto, não posso deixar de constatar uma falta de sofisticação no mercado Bancário Angolano, nomeadamente, ao nível das empresas. Existe um conjunto de serviços financeiros que não estão disponíveis para as empresas Angolanas porque simplesmente não existem, algo que, condiciona a gestão da tesouraria das empresas. É um mercado ainda imaturo, como já foi referido neste espaço, e sem um mercado Bancário forte, não é possível ter uma Bolsa de Valores credivel, por muita vontade e pensamento positivo que possam existir na classe dirigente.
Existe ainda um outro factor no Sistema Bancário Angolano, que é motivo de preocupação, a existência ou não, de sistemas de avaliação de riscos e a sua validade. É um detalhe muito importante, principalmente, em Angola, pela forma como funciona a sua economia em certos sentidos. Quantas vezes, já não aconteceu, o financiamento para um projecto ser recusado porque não é considerado viável, e depois os promotores do projecto recorrem ao sistema, para o mesmo Banco que recusou o projecto, acabar por conceder o financiamento solicitado? Nem menciono, o desgraçado que ousou chumbar o projecto à ilustre figura. Mas seria interessante conhecer os níveis de morosidade e a magnitude dos incobráveis do Sector Bancário Angolano (refiro-me aos reais). Não foi há muito tempo que a imprensa angolana dava a notícia que dois empresários angolanos no seu conjunto deviam mais de US$ 300 milhões à Banca Angolana. O mais deplorável da situação, parece que um dos empresários, escreveu uma carta a um Alto-Dirigente do MPLA para interceder junto do Banco, por sinal público, onde tinha contraído a dívida, para provavelmente, obter, uma Amnistia Financeira, a custa do contribuinte Angolano.
São precisamente este tipo de situações que dão Má Imagem e Fama ao MPLA, e depois alimentam as especulações de corrupção e de tráfico de influências. Situações desta natureza deveriam ser veemente repudiadas pelo próprio partido, porque são questões centrais da sociedade angolana e com as quais se defronta no seu dia-a-dia. Os responsáveis políticos que governam o país, não deveriam esquecer em nenhuma circunstância a seguinte máxima: A mulher de César não basta ser séria, tem que parecê-lo.
No meu entendimento, num futuro próximo, esta forma de funcionar, pode revelar-se problemática, todos sabemos que a base do crescimento económico em Angola é o petróleo, mas também temos assistido a um Boom no Imobiliário, questiono-me, será que todos os Bancos Angolanos foram prudentes na concessão de créditos? Quando a Borbulha do Imobiliário estoirar em Angola, não iremos assistir a uma catadupa de falências no sector Bancário Angolano? Poderemos, sempre fazer de conta que não faliram e conviver com zombies bancários.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

BIC Portugal: A Arte do Bom Negócio

Ainda não são conhecidos todos os pormenores da venda do BPN ao BIC Portugal, provavelmente, nem nunca serão conhecidos. No entanto, com os dados já disponíveis, é possível chegar a uma conclusão, o BIC Portugal, fez aparentemente um excelente negócio. Porém, este negócio detém as suas subtilezas, merecedoras de reflexão, se o BIC Portugal pretender, que esta operação seja um sucesso total.
O BIC Portugal tinha uma base operacional reduzida em Portugal, basicamente, o seu objectivo estratégico era ser uma plataforma para os empresários portugueses que pretendiam investir em Angola e ser também uma plataforma para os empresários angolanos que pretendiam investir em Portugal. O Banco em Portugal tinha uma dimensão que poderíamos considerar inexpressiva.
Com esta aquisição do BPN, o cenário alterou-se substancialmente, apesar, da operação não conferir um estatuto de um grande banco em Portugal, permite ao BIC Portugal dar um salto apreciável, porque incorpora a rede comercial, ou seja, entra no retalho, mas também o centro de empresas do BPN. Além disso, com uma particularidade importante, sem ficar sobredimensionado para a actual realidade económica de Portugal, que como sabemos, é extremamente difícil. Será um grande desafio para esta Administração fazer esta operação rentável.
Penso que é precisamente na questão da rentabilidade do Banco que residem as grandes subtilezas desta operação. Senão vejamos, o BPN foi nacionalizado, o custo da nacionalização está estimado em 2,4 mil milhões de euros, consta que o Banco foi ou tem que ser recapitalizado em 500 milhões de euros. O custo total da nacionalização para o erário público português, de forma grosseira, estima-se em 3 mil milhões de euros. Convém ter presente que os 2,4 mil milhões de euros são imparidades que foram transferidos para 3 veículos públicos, cuja missão, impossível, é inverter as imparidades. Se formos realistas quem vai pagar os 3 mil milhões de euros são os contribuintes portugueses. É notório que a nacionalização do BPN conduziu a socialização dos prejuízos. Do outro lado, da balança, temos o BIC Portugal, que apenas por 40 milhões de euros comprou um conjunto de activos tangíveis e intangíveis (capital humano) do BPN. Diga-se de passagem com um enorme desconto. O BIC Portugal soube aproveitar a oportunidade e o momento.
No entanto, existe aqui uma enorme desproporção, é precisamente, nesta desproporção, que reside o ponto crítico do negócio, esta desproporção pode dar origem na sociedade portuguesa a um sentimento de enorme aversão em relação ao BIC Portugal, porque o cidadão comum pode pensar, o BIC Portugal fez o seu negócio da china a custa do contribuinte português. No entanto, o BIC Portugal não tem responsabilidade nenhuma, nem na nacionalização do BPN, nem no erro tremendo que se veio a revelar. Por isso, o fundamental neste negócio, será diluir a imagem, a marca, a existência do BPN da memória dos portugueses, como se a marca BPN nunca tivesse existido, quanto mais depressa desaparecer, melhor para o BIC Portugal. No entanto, uma factura de 3 mil milhões de euros custa a pagar e é muito difícil de ser esquecida.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Hooliganismo Político

O fenómeno do hooliganismo surgiu no mundo do futebol com especial incidência no Reino Unido durante os Governos de Margaret Thatcher. O hooliganismo consistia basicamente na organização violenta dos adeptos de um clube com intuito de caçar e agredir os adeptos das equipas rivais. Também havia uma grande consciência do território, o estádio de cada claque e as ruas circundantes eram considerados territórios inexpurgnáveis. O hooliganismo apesar de ter origem no Reino Unido muito rapidamente se propagou aos restantes países europeus, fomentando ódios e rivalidades. O episódio mais trágico do hooliganismo aconteceu em Heysel Park numa final entre Liverpool e Juventus, onde vários adeptos italianos morreram por esmagamento devido a onda de violência e provocações que antecedeu o jogo.

Noto em Angola alguns vestígios de Hooliganismo, nomeadamente, Hooliganismo Político após as manifestações pacificas que decorreram em Luanda. Vários participantes foram intimidados, ameaçados, inclusivamente, agredidos. Existem até relatos onde existiu o recurso ao uso de armas de fogo. Também existem denúncias, da formação de uma espécie de milícias políticas em certos bairros de Luanda, a ser verídica esta situação, penso que a intenção é aumentar o controlo das populações locais, fomentar medo e aumentar a repressão. De certa forma, assistimos a uma cultura de Hooliganismo Político que consiste numa caça ao adversário político. Mas penso que o recurso ao Hooliganismo Político uma estratégia pouco inteligente, penso que é preferível e mais sensato permitir o livre exercício da cidadania, ainda por cima, de forma completamente pacífica, porque permite um maior controlo dos próprios manifestantes, um maior conhecimento das suas actividades e a própria identificação dos manifestantes. Uma cultura de forte intimidação e repressão apenas vai conduzir a uma coisa, a clandestinidade dos manifestantes, portanto, a perda de controlo. A clandestinidade tem consequências, nomeadamente, o agudizar da luta contra o sistema com tácticas não convencionais, entenda-se terrorismo.
Poderá argumentar-se que em Angola os manifestantes não têm capacidade operacional para executar semelhantes actividades, é uma verdade, mas existem diversas estruturas internacionais dispostas a apoiar este tipo de actividades. Temos um exemplo bem recente na Noruega, onde um individuo com ramificações a extrema-direita executou um massacre.
Em Angola a maioria da população sabe manejar uma arma de fogo, muitos tiveram uma boa preparação militar, uma estratégia de repressão pode ter efeitos perniciosos, penso ser mais sensato dar espaço as pessoas para manifestarem a sua opinião, embora diferente e critica em relação ao Governo. Angola necessita desta liberdade, porque vai contribuir para o enriquecimento da sociedade, o debate de ideias de forma livre vai permitir a emancipação das consciências, o despontar dos melhores e o desafio da arte de rebater os argumentos. Este é o passo necessário para o crescimento da democracia, a selecção dos melhores entre os melhores, e não uma legião de acéfalos. Em pleno século XXI não me parece positivo a prática do terror sobre as populações, é tempo de fazer crescer uma democracia participativa, é importante, assistir a uma evolução ideológica no interior dos partidos, não é exequível no século XXI ainda ser refém de velhos dogmas. Por tudo isto: Não ao Hooliganismo Político em Angola.

sábado, 16 de julho de 2011

O Rating de Angola

A Standard & Poor's (S&P) acaba de elevar o rating da República de Angola para o escalão BB-, os fundamentos apresentados para justificar a revisão da classificação da dívida de longo prazo de Angola, foram os seguintes:

1.) Fortalecimento da situação orçamental e comercial;
2.) Elevação do preço do petróleo;
3.) Reformas estruturais efectuadas;
4.) Regularização das dívidas em atraso de 2008/2009.

A S&P salienta também os esforços realizados pelo Governo em matéria de fortalecimento na gestão das finanças públicas, bem como a implementação de procedimentos orçamentais com intuito de prevenir a acumulação futura de dívidas. Os analistas da agência de rating acabam por reconhecer vários méritos à Governação, acredito que a actividade governativa seja complexa, principalmente, quando o legado é um país totalmente destruído e devastado pela guerra. Apenas posso dar os meus parabéns ao Governo por esta melhoria gradual, que não é perceptível no quotidiano da maioria dos angolanos. No entanto, sou daqueles que pensa, o esforço merece ser reconhecido e louvado.
Mas um BB- não é motivo para a euforia, é uma classificação que continua a colocar o país no patamar do Junk (Lixo). Ninguém paga para ser Junk. Temos um exemplo bem próximo, a Moddy´s colocou Portugal no patamar do Junk, bem como as suas principais empresas, reacção portuguesa, rescindir o contrato com a Moddy´s. Volto a repetir: Ninguém paga para ser Junk.
Devemos ser conscientes que com uma classificação de BB-, nunca teremos acesso aos mercados internacionais, ainda por cima, se o nosso único fundamento económico for o petróleo. Senão, vejamos, porque razão nunca nenhum sindicato bancário se atreveu a realizar uma emissão angolana? Provavelmente, porque não tem procura nos mercados internacionais, e se tiver, o custo será exorbitante. Mas sendo assim, porque razão não organizam uma emissão com tomada firme? Porque sabem a um custo exorbitante Angola não vai ter condições de devolver a dívida. Mas os bancos, pedem sempre uma garantia, porque razão o colateral não é o próprio petróleo? Porque seria um colateral demasiado volátil, muito provavelmente, Angola ficaria hipotecada O resultado final é sempre o mesmo, Angola acabaria por não pagar, entraria em Default.
Neste espaço, sempre defendemos, o erro que seria para Angola submeter-se ao rating, continuamos a manter essa posição, porque ninguém se submete ao rating para ser classificado como Junk. Gostaria de salientar, que notamos uma alteração no paradigma que rodeia as agências de rating, elas estão a perder credibilidade, devido à Crise do Euro, as agências são acusadas de falta de transparência nas suas avaliações, as suas revisões em baixa coincidem sempre na véspera de alguma emissão importante da Zona Euro, suscitando a dúvida sobre os interesses obscuros que rodeiam as agências de rating. Parece que trabalham a soldo dos especuladores.
No entanto, para ilustrar a dimensão do erro que supõe estar exposto ao rating, um país com as características de Angola, ilustra-se da seguinte forma, Angola ter uma classificação BB-, significa que o aparelho empresarial angolano reflecte esta notação, por inerência, a Sonangol. Uma empresa como a Sonangol ser classificada ou rotulada com um BB- é extremamente penalizante. A Sonangol, só por si, é merecedora de uma classificação muito mais elevada. Desta forma, fica associada a uma percepção de risco que a empresa não detém. Convém lembrar, a Sonangol, é a empresa mais importante de Angola. Portanto, um BB- é um erro. Enfim, sempre podemos presumir de ter um rating melhor do que a Nigéria.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

A Sonangol nacionaliza Millennium BCP

Nunca considerei particularmente interessante o investimento da Sonangol no Millennium BCP, primeiro, pelo momento, a entrada da Sonangol coincide com uma luta pela sucessão no poder e com os accionistas a gladiarem-se; em segundo, pelas circunstâncias actuais com que se defronta a Europa, em particular, a Grécia e Portugal.
A luta pelo poder fragilizou imenso a reputação do Banco, com fugas selectivas de informação que puseram em causa a Boa Governação da Instituição e a sua Própria Imagem. O Banco começou a destruir valor, as acções iniciaram uma trajectória cada vez mais descendente em Bolsa até atingirem mínimos históricos (€ 0,38). Parecia que pairava sobre o Banco uma ameaça, para a Sonangol, a ameaça foi encarada como uma oportunidade, tendo em conta as circunstâncias, era uma oportunidade única para controlar o maior Banco Privado Português. Foi no silêncio e com muita paciência, a Sonangol foi alterando o equilíbrio de poder dentro do Banco, passando a controlar os principais Órgãos do Banco. Aliás, se a Sonangol pretendia estar no Millennium BCP, não fazia sentido estar no Banco como um mero espectador, principalmente, sendo o único com Liquidez, só fazia sentido estar no Banco para ser um actor principal.
O investimento no Millennium BCP foi colossal, e representa um custo de oportunidade, nomeadamente, se pensarmos nos investimentos que não foram realizados em Angola para socorrer o Banco. A decisão veio a revelar-se bastante onerosa e arriscada, o Banco não deixou de ser um bom activo de um momento para o outro, simplesmente, a conjuntura económica alterou-se muito e complicou bastante a situação do Banco.
O Banco tem uma exposição a Grécia de € 7 mil milhões, tudo indica que uma reestruturação da dívida grega acabará por ser inevitável, é apenas, uma questão de quando. Um haircut na dívida soberana grega implicará uma perda maciça para os investidores privados, o normal, será o Banco realizar provisões devido as futuras imparidades que se irão verificar. Os analistas estimam provisões na magnitude dos € 4 mil milhões de euros.
Portanto, futuros aumentos de capital serão forçosos no Millennium BCP, o problema, reside no facto dos accionistas de referência do Banco não estarem em condições para acorrer a um maciço aumento de capital (maciço porque o Banco terá que cumprir Basileia III). O Banco é confrontado com um enorme problema de liquidez, tal como, evidencia a sua exposição de sensivelmente € 15 mil milhões ao BCE, que já deu sinais de fechar a torneira. Ainda temos que descontar os € 5 mil milhões do ELA – Emergency Liquidity Assistence do Banco de Portugal e os possíveis efeitos das agências de rating.
A somar a isto, a realidade portuguesa, com um programa da Troika, que acentuará o ciclo recessivo no país, mas com € 12 mil milhões destinados à Banca, portanto, se os piores cenários se verificarem, os únicos potenciais accionistas para um reforço de capital no Millennium BCP será o Estado português (vía Troika) e a Sonangol (o único com liquidez própria). Poderemos estar na eminência de uma nacionalização com duas faixas de rodagem, uma para o Estado português e outra para o Estado angolano (Sonangol). A questão, será saber, se vão seguir no mesmo sentido?